quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Deserções de militares venezuelanos chega a 400 homens, 326 pediram asilo oficialmente

Soldado da Guarda Nacional Bolivariana sendo escoltado para assitência humanitaria ao cruzar a fronteira. Foto por Marcos Bello/Reuters.
Por: Redação OD Europa.

Até agora oficialmente 326 militares e policiais pediram asilo na Colômbia e alguns no Brasil, mas informações adicionais podem elevar esse numero para mais de 400 militares e policiais da Venezuela que desertaram nos últimos dias, cruzando a fronteira com o Brasil e a Colômbia, e reconheceram o líder opositor Juan Guaidó como presidente interino de seu país. Mas até que ponto esta movimentação indicaria um racha iminente no principal pilar de sustentação do governo de Nicolás Maduro?


A ação começou a conta-gotas no sábado (23), durante a frustrada operação de ingresso da ajuda humanitária, bloqueada pelos militares venezuelanos em meio a distúrbios que deixaram quatro mortos e dezenas de feridos nas fronteiras com os dois países vizinhos.

Mas já somam 326 na Colômbia e sete no Brasil, segundo autoridades dos dois países, a grande maioria de patentes baixas e médias. Alguns deixam seu país para trás, inclusive com a família, fugindo da grave crise econômica que afeta a população civil, assim como a tropa.
Policial colombiana abraça membro da Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela, que desertou e cruzou a fronteira para Cúcuta, na Colômbia, em 25 de fevereiro de 2019 - AFP/Arquivos

“O poder militar de Maduro está submetido a esta dinâmica erosiva que seu apoio popular já sofreu. As deserções fazem parte de um processo de desgaste, de socavamento das bases”, declarou à AFP o analista Luis Salamanca.

Guaidó, que está na Colômbia desde a sexta-feira passada, desafiando uma proibição de deixar o país, oferece anistia aos membros das forças de segurança que rompam com Maduro, mas o comando militar, ao qual o presidente socialista deu amplos poderes, se mantém fiel a ele.

Na tentativa de quebrar a cúpula, os Estados Unidos, aliados decisivos de Guaidó, ofereceram inclusive eximir de sanções os oficiais que reconhecerem Guaidó, mas o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, respondeu que não se deixarão comprar.

“Este é um processo que muitas vezes não se nota, um caminho que não agrada muito as pessoas porque é lento, mas que pode ter velocidade maior à medida que os militares e civis virem que o governo pode desmoronar”, acrescentou Salamanca.



Movimentos dissidentes apesar da lealdade aparente


Dos 32 ministros que compõem o gabinete na Venezuela, nove são militares e dirigem pastas estratégicas, como Defesa, Interior, Agricultura, Alimentação e a petroleira PDVSA, coração econômico do país.

A Força Armada, com 365.000 efetivos e cerca de 2 milhões de milicianos civis designados, tem banco, emissora de TV, empreiteira, companhia de mineração e gasífera. Uma potência que foi aumentando à medida que crescia a impopularidade de Maduro, segundo analistas.

“A deserção individual de soldados não vai quebrar o sistema de Maduro por si mesmo. Tem que passar ao nível mais elevado, de almirantes, capitães, coronéis e generais”, afirmou à AFP Christopher Sabatini, professor de Relações Internacionais da Universidade de Columbia.

Mas Diego Moya-Ocampos, do IHS Markit (Londres) destaca que assim como é difícil que oficiais de patentes baixas ou medianas possam concluir com êxito um golpe de Estado ou uma insurreição, também o é que o aparato de segurança defenda áreas estratégicas se aumentarem as deserções.

Os rachas, embora não determinantes até o momento, são mais evidentes: 180 efetivos foram detidos igualmente em 2018, acusados de conspirar, segundo a ONG Control Ciudadano (Controle Cidadão).

Dois generais estão entre os detidos na detonação de dois drones carregados com explosivos perto de um palanque onde Maduro presidia um ato militar em 4 de agosto.

Para Sebastiana Barraez, especialista em temas militares, “o que está acontecendo é a demonstração mais fidedigno da quebra dos pilares fundamentais da Força Armada”.

“São militares que não podem mais resistir às pressões, que são obrigados a assistir a atos, que não reconhecem seus comandos superiores”, manifestou.

Em 21 de janeiro, dois dias antes de Guaidó se autoproclamar presidente interino depois que o Congresso declarou Maduro um “usurpador” por considerar sua reeleição fraudulenta, 27 militares se rebelaram. Alguns se queixaram em vídeos da má situação em que os quartéis se encontram.



O sargento Carlos Eduardo Zapata, um dos que desertou na semana passada e cruzou a fronteira com o Brasil, resumiu assim a situação nos quartéis: “Não tem comida. Não tem colchões, nós, os sargentos da Guarda Nacional, dormimos no chão”.

“Não temos dinheiro para comprar leite para nos nossos filhos, nossos filhos estão magros”, acrescentou.

Rocío San Miguel, presidente da Control Ciudadano disse que “há muito nervosismo pela situação. Esta semana está previsto o anúncio de um aumento de salário para a Força Armada como incentivo à lealdade”.

Na avaliação de San Miguel, “o abandono de efetivos militares a Maduro vai continuar e só os que estão comprometidos em graves violações aos DH estão dispostos a continuar apoiando-o”.

No entanto, acrescentou a especialista à AFP, isto “não sem ter um Plano B de fuga que todos no alto comando militar o têm, pois nenhum vai se sacrificar por ele”.

Com informações via Agence France Press via redação Orbis Defense Europa.

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