quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Seminário "13 Anos do Brasil na Minustah" realizado pela Marinha do Brasil, faz balanço do aprendizado obtido com a missão


Por: Anderson Gabino

A Marinha do Brasil deu início no dia de ontem, ao Seminário Internacional “13 ANOS DO BRASIL NA MINUSTAH: Lições aprendidas e novas perspectivas” o qual serve para avaliar a experiência brasileira adquirida na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (MINUSTAH). O evento, que termina no dia 29, conta com a participação de oficiais de nossas três Forças Armadas, oficiais de forças estrangeiras, além de diplomatas, pesquisadores e outras personalidades ligadas ao assunto de DefesaO evento teve a abertura dos trabalhos as 9h15, com o Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira, dando as boas vindas aos participantes, e na sequencia proferiu algumas palavras.


Na sequencia o Srº Subsecretário-geral das Nações Unidas para as operações de paz, Jean-Pierre Lacroix, começou a sua explanação, falando em português o secretário revelou que a Contribuição do Brasil foi muito significativa pela capacidade dos brasileiros em implementar ideias inovadoras e conseguirem estabelecer a confiança com população e governo haitiano, e que o comportamento das tropas brasileiras sempre foi exemplar. Temos uma política de tolerância zero em relação a abuso sexual, então essa tradição de respeito às regras fora muito importante”, revelou o Subsecretário-geral da ONU. Aproveitando a sua vinda ao Brasil, a tarde o subsecretário visitou a fragata “Independência”, a qual levará em breve o novo contingente de militares brasileiros para a Força-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FTM-UNIFIL).


O Cenário encontrado pelas tropas Brasileiras 


Com o objetivo de restabelecer a segurança e a normalidade no Haiti, após sucessivos episódios de turbulência política e violência que culminaram com a partida para o exílio do então presidente Jean Bertrand Aristide, fora criada a MINUSTAH por ordem da Resolução do Conselho de Segurança da ONU em fevereiro 2004. "Quando chegamos, o Haiti beirava a uma guerra civil e passados estes anos, o país se tornou um lugar melhor de viver, só não ficou melhor ainda devido a uma série de catástrofes naturais. Mas, sob o olhar do prima segurança, houve de fato a estabilização do país. O processo político teve, pela primeira vez uma sequência de dois presidentes democraticamente eleitos. Antes, era raríssimo um presidente concluir seu mandato", avaliou o Contra-Almirante Carlos Chagas¹, que foi assistente do primeiro Force Commander (comandante da missão), o General de Exército Augusto Heleno.


Durante os 13 anos da MINUSTAH, as forças de paz presenciaram no Haiti várias catástrofes naturais e outras nem tanto, tais como furacões, inundações em períodos chuvosos, epidemias de cólera, terremoto (ocorrido em Jan/2010, deixando 240 mil mortos e 1,5 milhão de desabrigados), a fome do povo e várias outras intempéries, mas mesmo diante de tantas adversidades, o Contra-Almirante Carlos Chagas afirma que a sensação das Forças Armadas é de dever cumprido. "Fizemos o melhor que podíamos. E foi também uma experiência real de emprego das Forças Armadas, o que as deixa cada vez mais profissionais, mais treinadas e capazes de assumir novos desafios. Também permite um preparo maior para a própria defesa do país, que é a nossa missão fundamental", acrescentou.


O Contra-Almirante Carlos Chagas dividiu a missão de paz em fases, que segundo ele a primeira deu-se com a chegada e a acomodação das tropas, passando em seguida para o confronto com grupos paramilitares que colocavam em risco todo o processo de paz. Após o terremoto, teria se iniciado um trabalho de apoio humanitário mais intenso, até que fosse desencadeada a fase final de desmobilização. O Embaixador do Brasil no Haiti na época do terremoto, Igor Kipman lembrou que o hospital de campanha da Força Aérea Brasileira (FAB) realizou mais de 36 mil procedimentos clínicos e mais de 1,1 mil cirurgias. “Nós trouxemos um aprendizado muito grande sobre a integração das Forças Armadas com a comunidade”, disse o diplomata, atualmente cônsul-geral na cidade de Faro, em Portugal.


O seminário também abriu espaço para se discutir as lições e perspectivas das forças de paz da ONU. Segundo Ricardo Oliveira dos Santos, pesquisador de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), um dos principais desafios destes trabalhos é coibir os casos de abuso e exploração sexual, “Nenhum brasileiro foi efetivamente condenado por exploração sexual, o que denota um comportamento de excelência das Forças Armadas do Brasil, mas, infelizmente, nós observamos a persistências desses casos em outras tropas que fazem parte de forças de paz”, disse o pesquisador. De acordo com o Contra-Almirante Carlos Chagas, a experiência no Haiti coloca o Brasil em boa posição para integrar novas missões de paz. Atualmente, o foco é a Força Interina Militar das Nações Unidas no Líbano (FTM-UNIFIL).


Missão esta que a Marinha do Brasil, comanda desde 2011 a Força-Tarefa Marítima, onde são realizadas operações marítimas para coibir a entrada de armas ilegais e contrabandos no país. Além disso, são organizados treinamentos para a Marinha libanesa, de modo que ela possa futuramente conduzir as atividades de forma autônoma. A UNIFIL teve início em 1978, com a participação inicialmente de países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), cujo objetivo era assegurar a retirada de tropas israelenses do Líbano e restaurar a segurança na região. Após a crise de 2006 entre forças de Israel e o grupo islâmico político e militar Hezbollah, as atribuições da UNIFIL foram ampliadas.

Nota do Editor: (¹) O Contra-Almirante do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, Carlos Chagas Vianna Braga é Doutor em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Mestre em Military Studies pela Marine Corps University, EUA. Possui considerável experiência de campo e foi Assistente do primeiro Force Commander da MINUSTAH, de maio/2004 a junho/2005. Atualmente é o Comandante do Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo, organização responsável pela Escola de Operações de Paz de Caráter Naval.

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