sábado, 8 de abril de 2017

Quais são as possíveis consequências do ataque norte americano à Síria


Por: Redação OD
Os Estados Unidos lançaram 59 mísseis em uma base militar síria próximo à cidade de Homs na noite da última quinta-feira. Segundo o presidente, com o ataque químico, Assad “sufocou a vida de muitos homens, mulheres e crianças indefesas”, O afirmou ainda que o ataque foi feito contra a mesma base aérea de onde o governo de Bashar Al Assad lançou o ataque químico. Após o ataque, a Rússia suspendeu o memorando firmado em Washington sobre a segurança dos voos durante a operações na Síria.

O ataque foi classificado por analistas militares como uma mudança radical na política externa do presidente Donald Trump. Pois foi a primeira vez que os EUA atacaram diretamente instalações do regime sírio desde o início da guerra civil. A ação causou as mais diversa reações e opiniões em todo o mundo, mas isso já era algo sabido que iria ser gerado. Baseados nestas reações, quais podem ser as consequências da ordem dada por Trump no cenário internacional? Há três grandes pontos a debater:

1 - Relações EUA­/Rússia: A ofensiva foi levada a cabo por ordem de Trump, como represália por um suposto ataque químico do exército sírio contra civis, na cidade de Idlib, um dos principais bastiões de forças rebeldes no país. O regime do líder Bashar AlAssad tem o apoio da Rússia e, durante a administração do antecessor de Trump, Barack Obama, essa relação com Moscou tinha ditado um equilíbrio por parte de Washington.
"Obama decidiu que o interesse vital dos EUA na Síria era derrotar as forças do (grupo radical muçulmano) Estado Islâmico, sem envolver-se em um conflito maior no Oriente Médio", disse à BBC o Ex vice­ secretário de Estado americano Philip J. Crowley. Até a chuva de mísseis da quinta-feira, os americanos, juntamente com o Reino Unido e a França, tinham realizado bombardeios aéreos contraposições do Estado Islâmico na Síria, mas não investiram diretamente contra as forças de Assad (Washington há anos fornece apoio logístico e financeiro a grupos de rebeldes lutando contra o regime, incluindo milícias curdas). Trump, porém, mandou essa postura às favas e decidiu atacar o principal aliado da Rússia no Oriente Médio. Isso poderá azedar as relações entre os dois países, ambos membros do Conselho de Segurança da ONU.

A Síria é um país crucial para os interesses russos: é justamente lá que Moscou tem sua maior base militar fora de suas fronteiras. O apoio russo tem sido fundamental para a sobrevivência de Assad desde 2015, quando Moscou lançou uma campanha aérea contra grupos rebeldes e reequilibrou um jogo de forças que havia trazido várias derrotas para o regime. Por isso, a Rússia reagiu negativamente ao ataque americano: o porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, disse que "o passo dado por Washington causou dano significativo às relações entre Rússia e EUA, que já estavam em situação lamentável".
Isso apesar de os EUA terem avisado à Rússia previamente sobre o ataque à base e de terem evitado atingir setores em que havia presença de militares russos. A ação militar dos EUA ocorreu dias antes de uma reunião entre o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, e o presidente russo, Vladimir Putin, o primeiro entre o um integrante do governo Trump e Putin.
2 - Combate ao Estado Islâmico: Ironicamente, o ataque americano pode acabar criando problemas para a estratégia de combate ao EI. "Um colapso do regime pode transformar a Síria em um refúgio para extremistas islâmicos, justamente a situação que Trump quer evitar", escreveu, no "New York Times", o jornalista David Sanger. A influência do grupo extremista na Síria foi minada nos últimos meses, com a perda de mais de um quarto do território que controlava no país e no Iraque durante 2016.

A história do EI mostra que seus militantes aproveitam espaços deixados por vácuos de poder, o que aconteceu na Síria com o enfraquecimento do regime de Assad desde 2011. Outro problema para o objetivo americano de derrotar o EI é que, por enquanto, a coalizão aérea que comanda não teve problemas para sobrevoar espaço aéreo sírio. Mas isso porque as forças do regime e a Rússia não quiseram criar maiores impedimentos. Sem falar que os atritos com Moscou impedem uma ação mais coordenada contra os extremistas.
3 - Mais intervenções:  A decisão de Trump de dar a ordem para um ataque direto a instalações do regime foi uma mudança radical de retórica e ação de Washington em relação à administração de Obama. Apesar de ter advertido Assad sobre o uso de armas químicas, Obama não reagiu militarmente após responsabilizar o presidente por um suposto ataque que teria deixado mais de 1.400 mortos, em agosto de 2013 ­ ironicamente, o então apenas bilionário e estrela de TV Donald Trump pediu publicamente que o presidente não atacasse a Síria.
"O ataque contra crianças e bebês teve um impacto muito forte para mim", disse Trump, ao comentar o que teria acontecido em Idlib na semana passada. "Minha atitude em relação à Síria e a Assad mudou. Estamos falando de algo totalmente diferente agora". No entanto, Rex Tillerson negou uma mudança oficial de política em relação à Síria. "De maneira alguma este ataque muda nossa política em relação a atividades militares na Síria hoje", disse o secretário de Estado, segundo a agência de notícias Reuters.

Há quem tenha sugerido que o ataque americano foi uma forma de desestimular o regime sírio a cometer novos ataques químicos, algo respaldado pelo porta-voz do Pentágono (o estado maior das forças armadas americanas), Jeff Davis. "A intenção foi dissuadir o regime de fazer isso de novo e nossa esperança é que tenhamos obtido este efeito". O mesmo afirma Jonathan Marcus, analista de assuntos diplomáticos da BBC.
"Não há qualquer indicação de que os EUA queiram remover Assad do poder por meios militares". Mas a pergunta chave para alguns especialistas é como Washington reagirá caso o regime leve a cabo um ataque que deixe grande número de vítimas civis: retaliar à altura ou evitar ações mais diretas, o que poderia dar uma imagem de relutância para o governo americano.

"Em 2013, Obama ameaçou Assad com ataques aéreos, mas o problema é que os riscos de acirrar o conflito são muito maiores", diz Greg Jaff, repórter do jornal americano "The Washington Post". E a razão é simples: a presença reforçada da Rússia. "Agora as coisas estão mais difíceis", disse ao "Post" o general aposentado John Allen, que coordenou a campanha contra o EI no governo Obama. “Os EUA precisam se perguntar o quão moralmente indignados estão com essa situação e se estão preparados para tomar medidas que incluem a morte de russos na Síria". Outro ponto importante é se um endurecimento com a Síria seria um caso isolado ou o início de uma administração americana mais beligerante. Por enquanto, só as perguntas ficam no ar sem as respostas condizentes.
FONTE: BBC Brasil

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